quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Manual de Instruções

    Devo-te isto, quanto muito: estás atrasada. Se vieres ainda hoje, não batas com a porta, como é de teu jeito. Sei que não o fazes por mal. Mesmo que não esteja ninguém em casa, não batas com a porta: eu iria sempre senti-lo. A casa é minha e os rumores dela habitam os meus medos, as ansiedades intrínsecas de um ser no limite, limitado pelo lado lírico da vida.
    Ao entrares, faz como se estivesses em casa - no fundo estás, se a casa sou eu! Se me encontrares deitado, deita-te a meu lado. Sem cumprimentos, sem aforismos, sem palavras. Antes, porém, certifica-me de que não tens os pés gelados. Entra com cuidado na minha cama: estou quente e sou frágil. Ou estarei frágil e sou quente? 
    Não te vou querer por me quereres, não é assim que as coisas funcionam. Mas já foi. Não te vou olhar de um modo especial por me olhares de modo especial. Aprenderei a caminhar a teu lado se chegar a caminhar a teu lado: não para te acompanhar ou seguir, para te apreciar. 
    Os passos são como tijolos que se usam para construir algo. Eu só estou aqui a ver as vistas, desassociei-me disso, não admito que construam por mim, apenas comigo. Só admito desconstruções. A ver se olhas para mim. Quando acordares, não voltes a adormecer. Se adormeceres, não me chames: saí para comprar café para o teu pequeno-almoço.

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