terça-feira, 2 de setembro de 2025

Vir dar (ou a escadaria atapetada de estrelas)

 “Alastra a grande escadaria

atapetada de estrelas.”

Este ano não faz sentido.
Nem o ano anterior.
Nada faz sentido.

Janeiro foi o mês do chove-não-chove.
O mês do frio e do calor.
O mês do vou-não-vou.

Decidi ir.

Decidi aceitar este ano
e o resto da minha vida.

Resolvi dá-la ao acaso,
mas com os olhos no presente.

Não sei se acredite no presente, porém.
Não sei bem.

Nasci anarquicamente.

Júpiter puxa por mim

 Diz o Rick Levine — senhor que desconhecia,

mas que manda diariamente postas-de-bacalhau
sobre a minha vida.

E, em formatação, sobre a vida de tantos outros
que, como eu, aqui pousam os olhos à laia de bóia.

Diz o senhor:

“If you aren't willing to take on a certain level of responsibility today,
something may happen that requires you to step up to the plate
and do what you should have already done.
You can thank taskmaster Saturn for backing into your sign
and offering a healing course in self-discipline.
Use your common sense and don't wait until it's too late;
take action while you still have time to be successful.”

Animador.

Uma espécie de sal grosso em ferida recente!

O calor do medo

 Procuro-te.

No meio da multidão de flores diurnas que passam e riem,
és a flor que desabrocha à noite.

Sair de casa tarde, habituar-me ao escuro,
ao tumulto existencial em forma de pés que calcam e calcam,
imparáveis.

E, a cada passo, cuidadosamente,
evitar as poças de água
em que certamente nos afogaríamos.

Encontro-te.

Tens todo o ar de quem sabia.
O ar de quem sabe ter sido encontrada,
o olhar de certezas insossas, incertas, torpes.

O olhar teu de memórias ainda por viver.

Tens uma mão de carícias passageiras
na qual o passado tem importância relativa
no peso total da tua ternura.

Procuro-te.

Entre grossos pingos de chuva que nos alimentem,
entre o refrescar do calor abafador
de um monte elevado de situações a que chamamos vida.

Daqui criaremos uma exuberante selva, só nossa.

Seremos como um tigre na Ásia,
ou um ponteiro a roçar os segundos.

Caminho contigo, agora.
O nosso lugar não é aqui.

Tripulamos um beijo como o nosso
e não pensamos no desperdício
que foi ter estado tanto tempo sem ele.

Deixo sempre para trás
o frio da minha vida
em comparação com o calor do teu abraço,
na certeza injusta de seres forte,
tão forte,
que és inclusivamente capaz de afastar,
com os teus punhos,
punhados de fantasmas meus.

O calor faz-nos,
fez-nos,
alimenta-nos.

Não me sinto a ir de encontro a...
Estou de fugida.

O nós que somos
dá um sentido aquecido à fantasia,
a sonhos que se guardam
e esperam ansiosamente quietos
até ao final do dia.

É injusto, eu sei.
Tu dizes-mo também.
E é verdade também,
sabemo-lo ambos
no sono são desta vida.

Meias veias

 Tens nome de cidade

e veias salientes de vida.

Um riso de vida.

A cor das tuas emoções
transborda num sorriso.

Acabei de saber
que foste uma flor que cresceu em lugares escuros
e que, aos poucos, abraça a luz.

Cresces melhor assim.

Gosto de te poder acompanhar
nesse abraço tão teu
que, ao senti-lo,
estremeço.

A vida menstrua-se em ciclos.

Tens ainda nome de cidade
e é das ruínas do teu nome
que reergo os meus próprios sentidos —
como se fosse possível apagar as marcas dos passos,
ou descascar camadas da memória,
uma a uma.

Do sono saio desta sina.

Cromática

 A articulação total dos passos perdidos

torna-se numa orquestra gerida por ancas difusas.

Nessa globalização de emoções
existe um movimento que procura fixar-se,
irredutível, num coração mais sensível.

Até lá, em mais do que um sentido,
há extravasamentos autónomos
de liberdade cromática e olfativa.

Até lá, constate-se,
a lua encheu duas vezes,
marejando-nos os olhos
com a sua ilicitude romântica.

Recordam-se noites assim,
dias passados.

A articulação brutal de memórias.
Em franco movimento de expansão.

Uma língua rebatida
pela falta de vigor no seu exercício.

Uma sensação térrea
de não se pertencer a nada.

A contabilidade absurda de um suave ruído,
um roçagar de dedos
por obras de arte em prosa.

Expansão.
E Dalila.

Ao longe,
a luz da lua segue-nos para todo o lado.

O mundo está tranquilo
e, ainda assim, figura num estilo caótico
que teima em humanizar pretensões antigas
de quem não tem direito à temporalidade,
apenas à permanência de uma certeza sincera.

Nem sempre se pode contar
com o amanhã dos sonhos
e das esperanças prematuras.

É um contrassenso
solidificar passados compostos
em grãos mínimos de contrapartidas servis.

Com vigor conecta-se o presente
que — como a luz da lua —
nos segue para todo o lado.

existência, intimidade, cidade, manifesto

Existência é peso, absurdo, continuidade,
como a intimidade é cama, pele, segredos.

A cidade é comboio, táxi, suor, abandono.

O manifesto é um canto gritado
em rabiscos num muro.

“Não escrevo poesia, escrevo existência.

Não sei nada de contos ou de intimidades.
Desconheço crónicas enquanto escrevo cidade.

Sobra-me, manifesto:
existência, intimidade, cidade, protesto.

Sei do existir do corpo, da perda,
dos terramotos matutinos.

Saboreio o café íntimo,
os dedos na chávena,
os pés frios na cama.

Sei que a cidade é o louco no comboio,
o taxista das verdades,
o bêbedo aos ésses na rua.

Manifesto-me à esquina,
de escarro pronto,
ponta de cigarro sem riso
ou forma poética.

Tudo isto sou eu.
Tudo isto sou também eu.

Aceitação

 Num momento és corpo físico, noutro um corpo de memórias já mais desenhadas que reais, já mais imaginadas que concretas. Num segundo mostras o teu sorriso doce e meigo, a verdadeira janela da tua alma pura, no segundo seguinte resta apenas o vislumbre de algo que julguei ver, ou melhor ainda, imaginar. A vida, entretanto, continua indiferente a tudo, a todos, a nós. Sobretudo a nós. 

Enterro contigo parte de mim. Os abraços dados fizeram-me indiferente perante a magnitude de uma dor que se instalou muito antes de ires. As palavras, essas, nunca chegaram a ser ouvidas. 

A verdade é que a vida é um desperdício. O ciclo de estadias e partidas apenas agora começou. Resta habituar-me a ser um ponto de permanência, um porto seguro de vontades e crenças que não são nada mas, como a vida me disse e foi ensinando, são tudo a que me posso agarrar. É como se estivesse perdido no mar, sem sensação de resgate, apenas admiração pelo que parece - dentro do finito - infinito.

Nesta linha ténue, entre o fim e o tudo, nada mais resta senão aprender a aceitar.