terça-feira, 2 de setembro de 2025

São

Sombra em fragmento,

reflexo partido como cão vadio.

Pele fria em semicírculo,
aforisticamente à flor da mesma,

como montra cega
a ferro e pão
em rua sem saída.

Cicatriz sonora
de uma geometria quebrada
pelo tempo ou pelo tanto,

agasalhada pelo silêncio negro
de quem não sabe pedir tanto.

Semicírculo

 Este sou eu refletido numa montra suja.

Sou eu de lado,
sombra sem dono,
passo dado sem ecoar.

Mínimo.

A parede fria está quente
com rabiscos ébrios.

A realidade drogada
numa cadeira vazia
que há muito se ajeitou
a um corpo ausente.

Assento-lhe o silêncio
entrecortado com a tosse metálica
de um qualquer vizinho,
mergulhado numa qualquer televisão
ou em promessas de outras vidas.

Coloco ao peito
os fragmentos alheios que brilham ao alto,
de uma arrogância jovem e sem par.

Sigo insulto abençoado
pelos semáforos da vida.

Os olhos que piscam não são meus.
A autorização de passagem
é-me interdita.

Mais vale a pena
ficar sem fazer nada.

Mais vale a pena
nadar em cimitarra.

Sombra em fragmento

Dobro uma esquina desconhecida - há sempre uma...

Que respira fora do mundo,
alheia a tudo,
sensatamente ausente.

Como cães vadios correm os minutos —
tropeço-lhes no olhar
e tento agarrar, em vão,
a coleira existencial.

Nela me entrelaço:
tenso, teso,
de memórias inventadas
ou reflexos de olhos cheios,
alheios
de gesto banal.

Agito o banal, esquecido,
e misturo gotas de irreal não experimentado.

Sangue seco que jorrou um dia
ao sabor
de uma tarde tranquila.

Af(l)orístico

 A vida goza, é gozada

e manda-nos ir para outro lado
apenas para voltarmos a ela.

Existir é — como já disse —
um cálculo renal do tédio.

Uma vida sem sonhos
é a composição dessa tortura.

Procuro-te, vida,
em engarrafamentos quentes
e cafés frios,
em camas que ardem de abraços,
no tremer de lábios ou de mãos.

Palavras-nevão.

Fantasmas em floco
que incorporam o punho do silêncio.

Erguido, estanque, no ar.

Silencioso e negro,
bato com ele no nada.

A intimidade raspada daqui
é um sorriso desbotado,
rabiscado na respiração do luar.

Em viagens curtas.

Com música.

E gritos.

Branco tinto

 Abri hoje uma arca

com histórias e imagens,
pensamentos sentidos
e sentidos pensamentos.

Estava aqui, a pairar na internet,
imóvel, congelada.

Voltei a dar-lhe vida.

O tempo passou para mim
um pouco à imagem de como aqui passou:
suspenso.

Foi um ar que se lhe deu,
sete ou oito anos depois.

Mais maduro.
Menos amargo.
Mais envolto em tudo
e desprovido de mágoas.

Hoje volto a este estaminé
de onde nunca saí.

Epidemia da idiotia

 Estranho tudo isto,

tudo isto é estranho!

Somos uma espécie louca,
auto-destrutiva e violenta.

Somos também sensatos,
amantes da vida, pacíficos.

Gostamos de espezinhar os outros
e gostamos de os ajudar.

Vemo-nos mais do que somos,
esquecendo a nossa dependência absoluta
do mundo que tão avidamente procuramos destruir.

Tenho pensado nisto diariamente,
com cada vez mais força,
com desespero — sei lá bem o quê.

Gostava de mudar as coisas,
mas vejo-me puxado por elas.

Interventivo no sofá.
Passivo na ação.

Vejo-me um reflexo dos outros.
Somos todos reflexo dos outros.

Gostava que os pós de poesia, pintura,
arte em geral,
fossem cura para as doenças de que padecemos.

Gostava que todos recebessem educação,
conhecimento,
com gosto e gratificação.

Gostava de não ter idiotas perigosos,
absolutamente ridículos,
a serem eleitos
e cegamente apoiados
por outros idiotas.

Preocupa-me esta epidemia da idiotia.

Gostava de tanta coisa.

Mas sei que querer isto é impossível.

Resta-me reduzir os meus quereres,
fintar impossibilidades,
rematar forte para um golo
de possibilidades finitas.

O dinheiro manda muito.
A pior invenção da humanidade
manda muito
e manda tudo isto às urtigas.

Vejo amigos, conhecidos,
a terem mais e mais filhos.

Preocupa-me o futuro deles.

Parece-me irresponsável
meter mais bocas
num mundo insustentável.

Tudo estava bem
até aparecermos nós.

Agora que cá estamos,
por favor, façam por melhorar as coisas.

(Se bem que não piorarem
já seria fantástico.)

As minhas cestas

 Existe, por aí, alguém que espera,

que aguarda veladamente na escuridão do tempo.

De seu próprio tempo.

Disse alguém,
como poderia muito bem ter dito algo.
Uma entidade.
Um medo.
Antigo como o tempo.

De todos os dias,
a Sexta-feira é a que passa mais de fugida
e, simultaneamente, mais devagar.

No ar, partículas suspensas
de tensão e de sudação.

Nas bocas,
mal se consegue esboçar um bom dia.

As Sextas são senhoras de engarrafamentos
e comboios lentos.

Contam histórias de encontros fugidios,
de palavras mal trocadas,
de olhares de desejo
mesclados com fiadas de cansaço.

Sonhei sempre bem à Sexta,
embora nem sempre confortado
pela perspetiva de dois dias sem fazer muito.

Uma vida sem sonhos é tortura.

Acho que te conheci a uma Sexta.

Desculpa a imprecisão da minha memória.

Se não foi,
escolho ainda assim esse dia —
escolho o presente contigo.

O presente que és tu. És presente.

És-me presente.

Há, certamente, um ajuste de contas
a fazer com este presente.

Contigo.

Se abrir bem os olhos,
verei ao longe uma resposta.

Quanto mais longe estiver,
mais próxima estará de mim.

Ou vice-versa.

Não sei o que aconteceu ao rapaz do saxofone
que afugentava gatos com trinados suaves.

Nem à senhora da padaria,
cabelo louro, simpatia célere.

Nem sei muito bem
o que me aconteceu a mim.

Sei apenas que tudo isto se deu a uma Sexta.

O meu dia preferido, vá lá.

Sei também que nada mudará facilmente,
embora nada continue igual.

Uma vida sem sonhos não revela pastelarias.

Sem eles,
tudo se resume a ordem, disciplina, cansaço.

Fatias de cansaço
despachadas com celeridade e simpatia.

Assim é a minha vida sem ti.

A minha vida sem ti foi o mesmo.
Sempre o mesmo.