quinta-feira, 24 de março de 2022

Ouver

Poeta pintor impressionista e musical,

vês bem — sem saber relacionar convenções com conversas.
O teu fluir existencial é vida em tantos.

Relacionas poemas com a riqueza intertextual da nossa hiperatividade,
com a efemeridade momentânea de um significativo sorriso.
É nisso que se resume a vida.

O conhecimento obsidiante do texto literário
pode ser a porta para combater a iletracia estética
que domina a nossa realidade amorosa e cultural,
o vácuo que retorna ciclicamente aos nossos sonhos.

Regressarás mais tarde a tudo —
vê isso, Bárbara, que és metáfora de rio —
às insolações de um texto sofrido,
arrancado a golpes de riso das agruras da preguiça.

Tropeça bem nas felicidades armadilhadas
que resistem nas frustrações de não bocejares frequentemente.

Vê isso, Bárbara:
és traçada por hibridismos,
cruzada por mutismos envergonhados e por cumprir,
quebrando as burocracias da vida,
seguindo em harmonia filarmónica.

Entrelaçadamente

Presumi ser capaz de trocar a perspetiva,
da lonjura de tempos presentes que se passaram.

Não vou tinir numa pontuação inexpressiva,
nem repetir o inane.

A historicidade dos outros cumpre objetivos na minha,
da qual recuso ser refém.

Os nossos signos semânticos,
a cintura verbal, lapidar,
são diálogos traduzidos
num procedimento que enriquece
as mensagens do aborrecimento.

Somos poemas em confronto.

Falamos com acerto em pensamentos difusos.
A maturidade poética das nossas almas
não se reflete na pueril velhice quotidiana dos corpos.

Paisagens, figuras, entretenimento, lar —
uma caligrafia poética começada na mão errada.

É preciso ler os signos pictóricos,
escutar-lhes a intenção escondida.

Artistas da palavra, da imagem,
renovamos linguagens,
resmungões semânticos e pragmáticos,
fazendo culto de um corpo de expressões.

Chamo-te David.
Serei a tua Mona Lisa.

Vejo-te como Sophia,
numa interpretação míope
do que não és hoje,
nem foste nos futuros de ontem.

Não sei escrever as conclusões
nesta folha da alma sensível.

E assim seguimos,
entrelaçadamente.

Minto ao tempo

Os olhares entrecruzavam-se fazia tanto tempo.
Tempo de mito, tempo concreto, tempos líquidos
que se confundem e misturam.

O amor-paixão ainda é equação ausente.
O amor puro, singelo, o primeiro amor,
já lá foi na caminhada do referido tempo,
a coberto da bruma provocada
por lágrimas, tristeza e sensibilidades agudas.

Usamos códigos italianizantes
para conceber o nosso diálogo amoroso
de mudez e segundas intenções.

Ideal de mulher, ideal de homem.
Objeto de contemplação espiritual.

Leio com atenção os teus olhos,
não vá escorregar numa qualquer interpretação errónea.
Volto a ler, com medo
de ter soletrado mal o desejo de outrém.

Nenhum poema vive exclusivamente do seu tempo presente.
O nosso olhar literário vive do passado;
é assim que vazamos os nossos sentimentos:
intertextualidade transitória das nossas desgraças,
caindo na redenção da perspetiva do teu colo,
na antecipação de um afago.

A redondilha das maçãs do teu rosto.

A sistematização da intenção das nossas vontades,
frágeis, por vezes frias.

A alusão que não se esgota em si mesma
a outros amores e outros olhares.

És o meu eleito modelo arcádico.
Terás o meu cunho.
Bebo do teu sorriso clássico.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sonhos reais

As escadas sobem até tua casa,
situada algures entre a terra de onde parto,
um céu azul e uma vontade escangalhada.

Em ti pousado, finalmente,
abandono por momentos o meu lugar.
Levanto-me, como em passeio casual,
na tua direção.
Sempre nela.

Alguém grita, descontrolado.
A escada não acaba
a partir do momento em que me encontro nela.

Parti da terra, nível zero:
um cinzento povoado de tons,
mais claros ou mais carregados.
Óleo no chão.
Caixa de esmolas na mão.
Sempre pedinte de algo na vida.

Nunca tive nada.
E sempre me tiraram tudo.

Ao subir, cruzo-me com caras cinzentas,
claras ou escuras,
que ignoram o código simples
de responder ao meu sorriso.

Sempre que posso, entre inspirações profundas,
espreito pelas janelas de transição.

Edifícios, sempre mais altos,
sempre mais iguais,
escondem as mesmas caras cinzentas,
treinando sorrisos ao espelho.

A escada continua, caracol, interminável.

Como os sonhos.

Nome de cidade

A minha amiga chama-se Coimbra e tem com isso um trauma: não consegue dizer o seu nome. Nem sequer lá vai por sinónimos. Quando lhe perguntam o nome responde, por isso, "não sei", sem que os outros fiquem à espera de mais nada.

A

Acção, atrito, armadura, Ana, assadura, amor, asco, artigo, artrose, arte, acariciamento, actividade, alimento, aleijar, alguidar, amêndoa, amargura, amizade, armísticio, amplitude, altivez, aforro, agravar, arriscar, atónito, ajoujado, árvore, aríete, ânsia, afogamento, aflição, algoz, afrontamento, abalroar, albernoz, albergue, avidez, avolumar, aplicação, afagar, ambos, abalo, abalar, amortecimento, alternativa, alternadeira, angra, animosidade, animalidade, ânimo, antigo, altivez, atoarda, alindar, abrigar, amplexo, amostra, atracção, arrojamento, aquartelamento, acautelar, acidental, acrescido, ácaro, acizentado, assaz, agrura, altivez, ambivalência, ambulância, atestado, atiradiço, assanhado, abananado, algorritmo, assíndote, anorética, afónica, afogueada, aflora. Foda-se.

A monte na noite

As noites têm as suas fotos,
dados que nos ficam na memória ram ou rum,
algures entre o coração, a cabeça e a alma —
um triângulo das Bermudas de calças,
com pernas, carne e sangue bombeado
por emoções reais
e paranormalidades bocejantes
de seres ausentes das exigências do nada.

E olhos.
Para te ver melhor.

A noite deixa-nos sons sem imagens,
arrepiantes ou ternos,
devastadores ou excitantes.

A noite vale mais do que amar mil imagens.
Quem disser o contrário é parvo.
Ou elevado ao quadrado de parvo.

Há noites de magia,
em que a lua cheia teima em entrar-nos pelos sentidos
sem permissão ou garantias.

Noites em que o destino resolve colocar pessoas
que nos fazem falta no caminho —
um jogo de xadrez de acasos.

Há noites de terror,
de violência bárbara em que os homens não são homens:
apenas emoções desregradas,
raivas ecoantes,
perdidas nos labirintos da solidão.

Há noites estranhas,
noites calmas, frias ou quentes,
noites longas, curtas,
noites que parecem não terminar mais.

Até ser dia,
baila-nos a ideia de que as noites são humanas.

Há noites malucas,
teatrais até mais não.

Noites banais,
noites demais,
noites inesquecíveis —
até não nos lembrarmos mais.

Noites em que a escuridão se torna um manto acolhedor,
noites putas em que somos levados, abalroados,
sulcados pelo imprevisto.

Há noites de outra escuridão.
Há noites de água e pão.
Há noites de sono simples e bom —
porque amanhã trabalha-se cedo,
porque sim ou porque não.

Há noites estranhas que sentimos nas entranhas,
noites calmas misturadas com noites de querer(-te),
outras em que não.

Pelo menos até ser dia.