Sinto-me devasso,
com confidencialidades
à flor da pele.
Não sei o que se passa
no ser-se humano.
Sei-me insano.
Sinto-me devasso,
com confidencialidades
à flor da pele.
Não sei o que se passa
no ser-se humano.
Sei-me insano.
Chegou ao comboio já careca, meia-idade.
Colocou-se imediatamente a meio da carruagem.
Ia fazê-lo pelo Sporting.
Despiu-se quase na totalidade, exceção feita aos calções e às sapatilhas.
Começou por fazer vinte flexões de braços enquanto insultava o Benfica e o Porto.
Vangloriava-se de ter falado com o Sá Pinto
e de ser conhecido em Sintra.
Fez mais umas quantas flexões de pernas,
gabando-se do físico.
Cumprimentava as pessoas
e continuava a insultar os rivais clubísticos.
Percebi depois que se exibia para um conhecido
que vestia um jérsei leonino autografado.
O absurdo da cena atenuou-se um pouco.
Algumas pessoas riam.
A maioria ignorava-o.
O comboio partiu.
O seu rosto estava agora vermelho do esforço e do orgulho.
Chegados a Santos, já vestido —
e sob o atento olhar de dois polícias —
tentou cravar o jornal ao seu conhecido,
que afinal não o era.
Despediu-se de todos os espectadores com um:
“Agora vou à Kapital!”
Estavam 10 graus lá fora.
A carruagem ficou impregnada de suor.
Leonino.
Apanhei o táxi por necessidade. Estava atrasado.
Depois de comprar o jornal, enfiei-me logo no primeiro da fila.
O carro cheirava intensamente a suor.
Disse: “Era para a Rua do Cruzeiro!”.
Respondeu o taxista: “Era, já não é?”.
Típico.
Bem-disposto, foi alegrando a travessia matinal com a sua sabedoria.
Eu, sabendo que a viagem nem era assim tão longa — e sentindo uma boa-disposição ausente há dois dias — alinhei.
Fomos na conversa.
De repente, a pergunta:
“Sabe quantas verdades há no mundo?”.
Não fazia ideia.
“Quatro!”, informou-me. “A sua, a minha e a do outro.”
Fez uma pausa, esperando que perguntasse pela quarta.
Deixei-me estar, saboreando a sua ansiedade crescente de conclusão.
Como nenhuma das partes cedia, perguntei finalmente:
“Então, e a quarta verdade?”.
“Calma”, respondeu. “A quarta é a Verdade.”
Fiquei calado. Pensei que até poderiam ser duas verdades e meia, se cada opinião valesse apenas metade, três e dois quartos ou até mesmo apenas uma.
“Eu tenho a minha opinião, você tem a sua, o outro tem a dele. Depois existe a Verdade.”
Simpática maneira de começar o dia, não é?
“É bem verdade.”
Fechei sonoramente a porta do carro.
Sempre te senti a transbordar
de uma arte sensual que desconheces.
Coisas tão corriqueiras
que nunca percebeste:
a forma dos teus dedos a segurar a chávena de café.
A maneira ténue da tua língua
a bater nos dentes da frente —
esse doce falar enrolado.
O modo como pareces desenhar mentalmente
as coisas para as quais olhas.
As palavras que ponderadamente dizes.
E, enquanto reparava de forma subtil em ti,
deixei-me ir.
Acordei hoje às quatro e dez da manhã.
Disseram-me depois
que fora um terramoto.
Devo-te isto, quanto muito: estás atrasada.
Se vieres ainda hoje, não batas com a porta,
como é de teu jeito.
Sei que não o fazes por mal.
Mesmo que não esteja ninguém em casa,
não batas com a porta:
eu iria sempre senti-lo.
A casa é minha
e os rumores dela habitam os meus medos,
as ansiedades de um ser limitado
pelo lado lírico da vida.
Ao entrares, faz como se estivesses em casa —
no fundo estás, se a casa sou eu.
Se me encontrares deitado,
deita-te a meu lado.
Sem cumprimentos,
sem aforismos,
sem palavras.
Antes, porém, certifica-me
de que não tens os pés gelados.
Entra com cuidado na minha cama:
estou quente e sou frágil.
Ou estarei frágil e sou quente?
Não te vou querer por me quereres.
Não é assim que as coisas funcionam.
Mas já foi.
Não te vou olhar de modo especial
por me olhares de modo especial.
Aprenderei a caminhar a teu lado
se chegar a caminhar a teu lado:
não para te acompanhar,
nem para te seguir,
mas para te apreciar.
Os passos são como tijolos
que se usam para construir algo.
Eu só estou aqui a ver as vistas.
Desassociei-me disso.
Não admito que construam por mim,
apenas comigo.
Só admito desconstruções.
A ver se olhas para mim.
Quando acordares, não voltes a adormecer.
Se adormeceres, não me chames:
saí para comprar café
para o teu pequeno-almoço.
Para sempre, para ti, significa nada para mim, pequeno fantasma.
A nossa dança não se resumia a um movimento de ancas, um twist.
Não.
Nesta dança já há muito mudámos de pares.
És fria — por isso, fantasma.
Não sabes para onde vais, e por isso fantasmas por aqui.
Não fantasmes mais.
As tuas palavras foram um desenho que esbocei.
O tempo passou desde que as proferiste,
quase formando um escudo,
quase como se não tivesses já boca.
Não recordo uma fotografia tua na minha memória.
As tuas palavras são como flocos de neve:
leve som etéreo que esvanece.
Para sempre só o será
porque és fantasma por exorcizar,
por expulsar como fim.
És um papel esquisito
sobre o qual escrevo duas ou três linhas
e depois desisto.
Um papel estranho
onde as palavras voam de um lado para o outro.
Escrevo-o a negro.
Como elas, não posso parar de correr.
Não páro de correr até descolar.
Vou daqui até à lua.
Uma cadeira confortável
é todo o quinhão que me calha da vida que interessa.
Só preciso de um dia para que o meu corpo se afeiçoe a ela,
para nela dançar, desenhar, fotografar,
sonhar os sonhos estranhos
que me fazem querer sonhar sem parar —
sem isso de acordares.
As tuas palavras nevam lá fora enquanto durmo.
Navegas.
Caem como se não houvesse amanhã,
como se o dia fosse sempre noite.
O dramatismo das tuas palavras deixa-me louco.